Encontro em Manaus reuniu jovens e representantes de diferentes instituições para fortalecer a participação e construir respostas aos desafios dos territórios
Guilherme Freitas via MAGIS Brasil
Formação, saúde, educação, participação, cultura, trabalho e renda e defesa dos territórios estão entre os caminhos apontados pelas juventudes reunidas em Manaus (AM). Depois de três dias de escuta e construção coletiva, o Fórum das Juventudes Amazônicas chega ao encerramento neste domingo (27) com propostas que buscam dar continuidade, nos territórios, ao que foi partilhado durante o encontro.
Mais do que chegar a uma lista de ações, o percurso permitiu que jovens de diferentes realidades amazônicas colocassem em comum suas experiências, identificassem desafios e reconhecessem forças de transformação já presentes nas comunidades. As propostas apontam para o fortalecimento da formação integral e do protagonismo juvenil, além da ampliação da articulação entre obras, serviços e instituições.
Realizado entre 25 e 27 de setembro de 2026, na Casa de Retiro Ir. Vicente Cañas, o Fórum reuniu jovens, lideranças, religiosos, agentes pastorais e representantes de diferentes instituições. Espiritualidade, formação, cultura e convivência fizeram parte de um processo orientado por quatro movimentos: escutar, conectar, construir e esperançar.
Promovido pelo Centro MAGIS Amazônia, o encontro contou com o apoio da Frente Apostólica Juventudes e Vocações e das obras e serviços da Companhia de Jesus presentes nos diferentes territórios amazônicos. A construção envolveu ainda organizações e instituições que atuam junto às juventudes e às comunidades da região.



Um caminho que começou antes do Fórum
A experiência vivida em Manaus não começou com a chegada dos participantes à Casa de Retiro. Em abril de 2026, o Pré-Fórum das Juventudes Amazônicas reuniu, de forma on-line, jovens, jesuítas, colaboradores e lideranças para iniciar um processo de escuta e aproximar diferentes iniciativas presentes na região.
As contribuições daquele primeiro encontro ajudaram a preparar a etapa presencial. Assim, o Fórum foi sendo construído não a partir de respostas previamente estabelecidas, mas das questões trazidas por quem vive e atua nos territórios.
Essa construção em rede se refletiu na diversidade de presenças em Manaus. Participaram representantes de pastorais, paróquias, comunidades religiosas, organizações socioambientais, instituições educacionais e iniciativas de comunicação, além de jovens indígenas e lideranças de diferentes territórios.
Entre as instituições e redes representadas estiveram a Rede Inaciana de Juventude – MAGIS Brasil e o Centro MAGIS Amazônia, o Serviço de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (SARES), a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), a Cáritas Arquidiocesana de Manaus, a Pastoral da Juventude, a Rede de Ação da Companhia de Jesus (RACJ), obras salesianas, paróquias, comunidades e outras iniciativas presentes na região.
Uma Amazônia contada por suas juventudes
Na sexta-feira (25), uma mística com os elementos terra, água, fogo e ar abriu o caminho de reflexão sobre a diversidade amazônica, os povos da região e o cuidado com a Casa Comum.
A partir desse primeiro movimento, os participantes foram convidados a nomear esperanças, lutas e desafios de seus territórios. As partilhas revelaram diferentes realidades, mas também questões que atravessam a vida das juventudes na Amazônia.
Para Ingridi Arruda, de 24 anos, de Nova Esperança do Piriá (PA), reunir essas experiências ajuda a ampliar a compreensão sobre a própria região.
“São muitos jovens, muitos territórios, muitas culturas e muitas vivências diferentes. É justamente isso o que a Amazônia representa”, afirmou.
Segundo a jovem, a escuta também ajuda a romper uma visão reduzida sobre o território. “É tentar desmistificar um pouco dessa Amazônia que é mata, floresta, mas onde existem etnias, cidades e povos que precisam ser escutados.”
Escutar antes de propor respostas
No sábado (26), os participantes avançaram da partilha para a análise das realidades. Organizados em grupos, buscaram compreender os desafios, suas causas, as relações de poder envolvidas e os sinais de transformação já existentes.
A proposta foi partir da escuta antes de elaborar possíveis respostas. Ao final, os grupos começaram a sistematizar prioridades e caminhos que poderiam ser assumidos pelas juventudes, comunidades e instituições.
A espiritualidade também acompanhou esse percurso. Na manhã de sábado, Dom Frei Samuel Ferreira de Lima, OFM, bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus e referencial para a juventude, presidiu a Santa Missa.
Na homilia, refletiu sobre a juventude como tempo de lançar raízes e encontrar sentido para a vida. “Deus aponta pra nós um caminho inverso. O caminho de perceber que, na simplicidade de todas as coisas, está a grandeza de Deus”, afirmou.
E acrescentou: “Amar não é conquista, não é vitória. Amar é despojamento. Amar é dar a vida pelo outro.”
À noite, a cultura amazônica ganhou espaço na programação. Apresentações destacaram diferentes expressões culturais da região, com ênfase nas manifestações relacionadas aos bois, além de outras tradições compartilhadas pelos participantes.




Cuidado, mulheres e saberes da Amazônia
O domingo (27) começou com um momento de oração e seguiu com uma roda de conversa com a Rede de Mulheres Soma dos Quintais da Amazônia, articulação idealizada pelo Serviço de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (SARES).
A jovem Beatriz de Sá conduziu a conversa. Yara Camile Pereira Marques, de Belém (PA), também participou do diálogo e partilhou elementos de seus estudos na área da saúde, especialmente relacionados à saúde das mulheres na Amazônia.
O momento dialogou com uma das questões que apareceram nas discussões do Fórum: a necessidade de compreender as juventudes de maneira integral e considerar as particularidades dos territórios.
Entre os caminhos apresentados pelos grupos estão ações voltadas à saúde integral e ao cuidado emocional, com espaços de acolhida e atenção aos jovens que vivem situações de violência ou maior vulnerabilidade.


Da escuta para a ação
As sínteses dos grupos apontaram caminhos para que o processo tenha continuidade depois do encontro. Entre as prioridades estão formação integral, participação e protagonismo juvenil, educação, saúde e cuidado emocional, cultura e saberes tradicionais, trabalho e renda, formação política e defesa dos territórios e da justiça socioambiental.
As propostas também indicam a necessidade de ampliar a articulação entre obras, serviços e instituições e fortalecer processos formativos que considerem as dimensões humana, espiritual e social.
Outro horizonte é fortalecer o próprio Fórum das Juventudes Amazônicas como espaço permanente de diálogo e incidência, permitindo que a articulação iniciada antes do encontro continue nos territórios.
“Ainda temos muito a descobrir desse universo juvenil”
Presente no último dia do encontro, Dom Zenildo Lima da Silva, bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus e vice-presidente da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA), destacou que o processo vivido é tão importante quanto os encaminhamentos produzidos.
“Há um olhar, graças a Deus, sobre a juventude. E esse olhar precisa ser um pouco audacioso, talvez até mais audacioso”, afirmou.
Dom Zenildo chamou a atenção especialmente para o desafio do diálogo entre gerações. Segundo ele, é necessário perceber e compreender os horizontes e expectativas dos jovens para evitar que interpretações construídas pelos adultos sejam simplesmente transferidas para as juventudes.
“Ainda temos muito, muito mesmo, a descobrir desse universo juvenil”, destacou.
Para o bispo, esse desafio também exige articulação entre as diferentes iniciativas que trabalham com jovens, sem transformar a presença institucional em disputa por protagonismo.
“Como nós articulamos todos esses olhares sobre as nossas juventudes para que não tenhamos uma disputa de protagonistas?”, questionou. Dom Zenildo defendeu a valorização das diferentes movimentações juvenis e encerrou sua participação resumindo a postura que procurou assumir durante o encontro: “Eu vou continuar fazendo aquilo que eu vim fazer aqui: ouvir e ver.”


Escuta que gera compromisso
Pe. Edson Tomé, SJ, secretário para Juventudes e Vocações dos Jesuítas do Brasil, também destacou que a escuta realizada durante o Fórum exige continuidade.
“A escuta é fundamental para que a gente tenha elementos para discernir aquilo que, de fato, é movimento do Espírito de Deus na vida de cada um de nós”, afirmou.
Ao se dirigir aos jovens, Pe. Edson agradeceu a coragem e a disposição de apresentarem suas necessidades e inquietações. Para ele, aquilo que foi ouvido gera responsabilidade para as instituições presentes.
“Eu me comprometo, em nome de todas essas organizações aqui, a mobilizar para que a gente consiga alcançar resposta satisfatória, à altura da ousadia de vocês, para que a gente possa avançar e fazer caminho de vida com todos vocês”, afirmou.
O jesuíta apontou três perspectivas para a continuidade: aquilo que cada pessoa ou organização pode realizar; o que precisa ser feito em conjunto; e aquilo que exigirá a busca de novos parceiros.
A imagem utilizada para representar essa articulação foi a da tarrafa, na qual diferentes nós se conectam para formar uma rede.
“Peço que nós possamos seguir avançando, construindo. É desafio, mas é possível. É muito possível, com a ajuda de todos e todas”, concluiu.
Pontes que continuam sendo tecidas
O Fórum mostrou que falar das juventudes na Amazônia significa reconhecer diferentes histórias, culturas, desafios e potencialidades. Ao colocar essas experiências em diálogo, o encontro buscou fazer da escuta um ponto de partida para compromissos compartilhados.
A diversidade de instituições presentes também reforçou o desafio de construir respostas em rede, mantendo as juventudes como protagonistas do processo. Entre os encaminhamentos está ampliar a articulação entre organizações, comunidades e lideranças e fazer do Fórum um espaço permanente de diálogo.
Após três dias de escuta, partilha e construção coletiva, o Fórum das Juventudes Amazônicas foi encerrado neste domingo (27) com a celebração da Santa Missa.
A celebração concluiu a programação em Manaus, mas não o processo construído pelas juventudes. As propostas seguem agora para os territórios e para as diferentes organizações envolvidas.
Se o caminho começou pela escuta, o desafio deixado pelo Fórum é continuar tecendo pontes: conectar juventudes, comunidades e instituições para transformar as necessidades e esperanças partilhadas em Manaus em ações nos diferentes territórios da Amazônia.









